O Brasil pode viver novamente sob uma ditadura militar?

Governada por um presidente abertamente simpático à ditadura militar de 1964, parte da população volta a ser assombrada pelo fantasma dos coturnos

Por Fernando Rogala

Entre os anos de 1964 e 1985, o Brasil viveu sob uma ditadura militar. Trata-se de um período que divide opiniões. Há quem defenda a época como uma das mais prósperas e “honestas” do país, e há quem a condene por causa da repressão e da supressão das liberdades individuais.
Passados 30 anos, o Brasil vive novamente uma democracia, com liberdade aparentemente irrestrita de expressão, de imprensa, de pensamento, de voto, de cátedra, etc. Essa mesma democracia elegeu, em outubro de 2018, o capitão reformado do Exército Brasileiro, Jair Bolsonaro (PSL), para o cargo de presidente da república.
Entre os eleitores de Bolsonaro, uma parcela considerável defende o retorno de uma ditadura militar para “endireitar” o Brasil. Para agravar, o próprio presidente volta e meia faz declarações, no mínimo, polêmicas sobre o assunto. Bolsonaro já elogiou o regime militar e homenageou o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de ter se envolvido em 500 casos de tortura durante aquele período.
Diante desse cenário, muitos começaram a se questionar: será que o Brasil pode voltar a viver sob uma ditadura militar? Um mundo como o de hoje, que passou por amargas experiências totalitárias e aprendeu a valorizar a liberdade, pode ser palco de novas ditaduras? Fizemos essas perguntas a dois professores, um delegado e um coronel do Exército, todos de Ponta Grossa, para saber o que eles pensam a respeito.

PROTEGIDOS PELO PODER DE MOBILIZAÇÃO E DE ACESSO À INFORMAÇÃO
“Não acredito que uma ditadura militar conseguiria se impor no Brasil de hoje. Vale lembrar que, quando isso ocorreu, havia um cenário diferente, tanto em âmbito mundial quanto interno. Nos tempos de hoje, ocorre certa simpatia por alguns aspectos na questão militar, mas que visa certa organização, certa disciplina, certa transparência. Porém, são várias gerações que nasceram e cresceram com outra ótica, outra cultura, outra ideologia. Hoje, com o surgimento da internet, das mídias e redes socais, e da globalização, a população em sua maior parte jamais aceitaria e permitiria que uma ditadura militar ocorresse. Hoje temos enorme poder de acesso a informações, de mobilização e de intercomunicação, o que permite ações conjuntas. O povo pode sair à rua para se manifestar quando bem entender. Penso que uma ditadura militar não seria boa para ninguém e tampouco seria viável”
NAGIB NASSIF PALMA, delegado-chefe da 13ª Subdivisão Policial

O APELO DAS ARMAS SERIA A VITÓRIA DA IGNORÂNCIA
“Nenhum país está livre de cair em uma ditadura militar. O apelo das armas serve como recurso para a ignorância prevalecer sobre o conhecimento. No Brasil de hoje, a ameaça à democracia ocorre junto com a escalada do anti-intelectualismo, especialmente o que atinge as ciências humanas. Para complicar, Jair Bolsonaro prefere apostar na divisão do país em vez de governar. Talvez nem precisemos de uma ditadura à moda antiga para retroceder à barbárie. O preço da liberdade não é a eterna vigilância. Vigiar cabe a quem gosta de punir, educar cabe aos praticantes da liberdade de pensamento. E não se constrói uma nação negligenciando a educação e a cultura. Ser livre e soberano passa por conhecer a própria história e enfrentar os traumas do passado e os dilemas do presente. Precisamos lutar contra o obscurantismo tal como lutamos pela democracia”
BEN-HUR DEMENECK, jornalista, escritor, professor e pesquisador da área de Comunicação e Jornalismo

HOJE A DITADURA É MAIS FINANCEIRA QUE MILITAR
Creio que não existe possibilidade de termos novamente uma ditadura como a que presenciamos nos anos 60, graças aos mecanismos de proteção à democracia que ainda existem em nosso país. Por mais que tenham algumas falhas, eles conseguem suprir, dentro do possível, a demanda por liberdades individuais. Creio que a ditadura sob a qual vivemos hoje é muito mais financeira do que militar. No jornalismo, por exemplo, a censura se dá muito mais pela quebra de contrato entre anunciante e jornal do que por meio da força física. Os demais mecanismos sociais não ficam muito longe disso. Em todo caso, temos que estar sempre alertas e denunciar todo tipo de coerção e intimidação contra quem quer que seja, principalmente contra as minorias e os grupos em situação de risco social”
HELTON COSTA, jornalista, historiador, professor e escritor

PAÍS VIVE UM AMADURECIMENTO DEMOCRÁTICO
“Os militares em nenhum momento pensam em implantar uma ditadura e retornar ao poder. As Forças Armadas não atendem a um período de governo, mas têm um compromisso maior com a defesa da Constituição e dos anseios do povo. Em 1964, ocorreu a revolução democrática porque a convulsão social daquele momento era imensa. O Brasil caminhava para um caos, e o povo foi às ruas pedir aos militares que assumissem o poder. E os militares sabiam que as instituições estavam preservadas e respeitaram a Constituição brasileira. Entretanto, penso que hoje o Brasil vive um amadurecimento democrático. É um momento em que as instituições nacionais precisam definir qual rumo querem dar para a nação e não vejam a mínima hipótese de as Forças Armadas tomarem o poder. Porém, os militares estão sempre vigilantes aos anseios do povo e ao que rege a Constituição brasileira”
JORGE EDUARDO DE AZAMBUJA BARCELLOS, coronel da reserva e ex-comandante do 13º Batalhão de Infantaria Blindado (BIB)

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