Luiz Fernando Cheres: O maldito vício do menino e de seu avô

Há uns quatro ou cinco anos, eu buscava alguns fatos da infância que ficaram perdidos no escuro da memória, pequenos cacos de velhas louças que o tempo e a vida foram aos poucos quebrando. E veio à cabeça a Praça dos Bichos, local mágico da antiga Ponta Grossa, para onde meus pais me levavam aos domingos. Então lembrei do livro escrito pelo amigo Odenir Follador, Memórias de Infância e Outros Relatos, com um capítulo inteiro sobre a praça e a sua história, inclusive com fotos. Mas, revirando a minha biblioteca, cadê o exemplar do livro?

Sumiu.

Por sorte, dias depois, encontrei a obra no Projeto Pegaí. Esse projeto é simples e maravilhoso: as pessoas doam livros, que ficam à disposição dos leitores em vários locais da cidade. Sem burocracia, sem falar com ninguém, fazer ficha ou cadastro, o sujeito pega qualquer livro, lê na velocidade que quiser e, mais tarde, devolve numa das caixas de coleta do projeto. Tudo muito simples.

Encontrei e agarrei o livro! Mas, no mesmo instante, ouvi uma reclamação de criança.
— Justo esse, tio, esse que eu queria ler!
Olhei para trás e vi um menino, um menino pobre, acompanhado de seu avô.
— O senhor desculpe meu neto, o moleque não para de ler, e eu contei que nesse livro aparecem brincadeiras da minha época.
Como assim? Desculpar? … Desculpar criança por querer livro?

Eu expliquei que conseguiria outro exemplar com o próprio autor, e cedi o livro para o garoto. Contudo, o guri insistiu em me repassar na semana seguinte, e até marcamos data e hora. Trato cumprido, ele veio com a obra e levou para casa um exemplar d’O Pequeno Príncipe.

Começamos a nos encontrar naquela estante do Pegaí, sempre nas sextas-feiras ao fim da tarde, e acabamos, eu, o menino e o seu avô, formando uma espécie de amizade intelectual. O avô, embora com pouca instrução formal, procurava textos mais filosóficos ou políticos, além da poesia. E eu pude acompanhar alguns dos entusiasmos literários do netinho, que foi transitando veloz da chamada literatura infantojuvenil para obras “adultas”, mas nunca abandonando a magia dos livros escritos para jovens.

Recentemente, o menino encantou-se ao ver minhas fotos ao lado de Rachel de Queiroz, Ignácio de Loyola Brandão, Moacyr Scliar, Nilson Monteiro e Ana Lúcia Merege, e lhe passei uns segredinhos para a fruição de poetas como Fernando Pessoa, Drummond, Neruda e o nosso Róbison Benedito Chagas. Outro dia, após apaixonar-se pelas crônicas do Miguel Sanches Neto, me fez jurar que eu iria apresentá-lo ao autor. Logo depois, assumi o compromisso de levá-lo a uma reunião da Academia de Letras dos Campos Gerais, pois ele confessou que queria ser escritor. Todavia, o triste destino foi mais rápido, não me deixou honrar essas promessas.

Nesses últimos tempos, ainda fiquei conhecendo o pai e a mãe de meu amiguinho, pessoas simples, honestas, muito religiosas, porém afeitas apenas ao chamado mundo prático, e sem nenhum interesse por leituras e livros.

O avô, de seu jeito, tinha grande influência nas leituras do neto. Tanto que me peguei debatendo Vidas Secas com um velho e uma criança. Também fizemos uma bela discussão sobre Mil Razões para Viver, de D. Hélder Câmara. Confesso que nas duas ocasiões pude aprender muito com os dois amigos.

Contudo, houve uma sexta-feira em que os companheiros faltaram ao encontro implícito. Na ocasião, nem dei importância à ausência. Depois vieram novas sextas sem meus amigos, e fiquei preocupado. Até que encontrei o pai do menino, alegre e solícito.

— O senhor não se preocupe com o meu filho. Quem morreu foi o velho, o meu sogro.
— Deus do céu, tão grande perda!
— Perda nenhuma, o velho safado, preguiçoso, comunista, sem Deus, ficava botando ideia esquisita na cabeça do menino!

Surpreendido, fiquei mudo.

— O senhor veja, o pirralho já não prestava pra nada! Se eu não pegasse pesado, o piá ficava o dia todo naquele vício maldito de leitura, enchendo a cabeça de coisa inútil, escrevendo tonguice num caderninho.
— Mas onde está o seu filho? Nunca mais encontrei com ele.
— Mandei de volta pra terra onde nasceu, o sítio do meu pai, bem longe de cidade, lá no interior do Pará.
— E o senhor acha isso bom para o menino?
— Lá ao menos ele aprende a trabalhar, derrubar o mato, caçar bicho, matar passarinho. Lá não tem livro, não!

Foi um murro na cara, paulada na alma. Despedi-me do homem e voltei para casa pensando que, talvez, sem querer, aquele pai tivesse dado os últimos retoques na arquitetura do avô. Quem sabe agora a vida poderia enfim construir no menino um poeta.

Luiz Fernando Cheres é escritor, autor de Um Beijo Longe dos Lábios e Amar não é Preciso. Ocupa a Cadeira nº 11 na Academia de Letras dos Campos Gerais (ACLG).

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