Fernando Saraiva: Ser um fumante sem fumar

Há oitenta e dois dias, duas horas, quarenta e cinco minutos e dez segundos eu fumei o meu último cigarro

Dois mil e nove, completo neste ano meio século. Momento para reflexões e planos, e, dentre os planos, estabeleci o da redução de cigarros fumados, ou seja, a diminuição do quantitativo de dois maços queimados ao dia. Esse plano foi motivado por uma simples pergunta feita pelo meu filho, então com 13 anos de idade: “O senhor é tão forte para tantas coisas, mas não consegue parar de fumar?”.
Estabeleci, para tanto, uma competição comigo mesmo, a redução gradual da utilização daquele prazeroso cilindro. E assim se sucedeu. Na primeira semana, houve uma redução drástica para apenas 30 cigarros diários. Que estranho prazer, conseguia me enxergar no espelho como aquele maratonista que sabe não ser capaz de chegar em primeiro, mas que só o fato de chegar já representa uma grande vitória. “Fantástico” era a expressão que mais se adequava ao sentimento que eu experimentava. Um pequeno sacrifício para um incremento tão grande em minha autoestima. Pensei: acho que dá para ir mais além, substituindo o prazer do cigarro pelo prazer da autoconquista.
Importante destacar que o meu objetivo não era parar de fumar, pois a minha saúde estava cem por cento, mas, sim, demonstrar para aquele atrevido filho que eu ainda era o seu paradigma de força e determinação.
Mais uma semana se passou com a manutenção dos 30 cigarros diários. Ora, eu já me sentia forte o suficiente para enfrentar um desafio maior, o de reduzir para 20 cigarros diários, e olha que não foi tão difícil como eu imaginava, sobretudo pela ajuda imprescindível dos constantes copos d’água e das balinhas dietéticas que, sempre que a fissura aparecia, me forneciam mais uns minutinhos sem o fumo. Ao longo daquele período semanal, eu imaginava a linha de chegada daquela maratona interna, o que me dava mais força para continuar a esperar sempre mais um minutinho para o próximo cigarro.

“Pensei: acho que dá para ir mais além, substituindo o prazer do cigarro pelo prazer da autoconquista”

Enfim, o tempo passou, e lá estava eu, vitorioso e orgulhoso, portando aquele fictício troféu, e assistindo aos aplausos de uma torcida, embora pequena, bastante barulhenta, pois a minha mulher e a minha filha, em sintonia com aquele “moleque abusado”, elogiavam-me efusivamente por tal feito. Não podia mais retroceder. Portanto, julguei importante não abusar, mantendo na semana seguinte os mesmos 20 cigarros.
Ora, já que eu tinha decidido fumar por toda a minha vida, a diminuição já me proporcionaria um grande alívio na consciência, pois teria mostrado para aquele objeto de corpo branco e cabeça e sangue marrons que eu mandava mais do que ele em meus desejos; fumaria, sim, mas 20, quiçá dez, tantos quanto eu quisesse, mas jamais imposto pelo simples fato da inquietação momentânea que a restrição relativa à nicotina me causava.
Surpreendente. Três semanas com 20 cigarros diários, e eu continuava vivo, feliz e realizado. Parti, então, em busca de um novo recorde: 15 cigarros diários. Muito treino psicológico esse novo objetivo me exigiu, não nego, até fracassos diários, mas nunca superiores a 20 cigarros já conquistados – o orgulho não me permitia retrocesso. Entre um percalço e um sucesso, a vitória consagradora na terceira semana de tentativa.

Lá estava eu, como a desafiar o bar que diariamente me assistia na compra daquele agradável pacotinho, pois já não necessitava lá comparecer todos os dias. Orgulhoso, falei à balconista sobre a redução drástica no meu vício, e brinquei que só por isso deixei de vê-la todo dia, isso para que ela não pensasse que eu estava traindo aquele estabelecimento que por anos me fornecia um intenso prazer, por meio de uma fumaça branca de gosto inenarrável.

“A diminuição já me proporcionaria um grande alívio na consciência, pois teria mostrado para aquele objeto de corpo branco e cabeça e sangue marrons que eu mandava mais do que ele em meus desejos”


No entanto, em casa, um silêncio perturbador daqueles que até pouco tempo atrás aplaudiam. O que estava acontecendo? Será que eles já não percebiam a minha grande luta, ou tal conquista já não era tão relevante? Não! Sou uma pessoa suficientemente capaz de discernir, embora com um certo dissabor, que eles, percebendo tanta evolução, estavam com medo de abordar tal tema, causando-me, talvez, uma pressão e, por consequência, o retorno à quantidade de 40 cigarros diários.
Aquela torcida já não aplaudia barulhentamente, mas eu sentia que vibrava, embora silenciosa e cautelosamente, mas sempre esperançosa, já que aqueles que tanto amor me proporcionavam, observavam, mas não cobravam. Cabia a mim mais um pouquinho de sacrifício.
Ousei. Dez cigarros diários, nem mais nem menos. E olha que consegui na primeira semana de tentativa. Um efeito surpreendente com essa última vitória, a torcida aumentou, pois já era notada, também pelos amigos e parentes, que aquela chaminé não pulsava como antes, que a fumaça, embora existente, não dominava mais o ambiente como outrora, e eu era o grande herói por esse feito.
Confesso, andava inclusive com certa arrogância, me mostrando, comparecendo a lugares sem a companhia daquele parceiro em brasas, levantando a cabeça e a mantendo ereta, como se a bradar aos quatro ventos: sou capaz de coisas até então inimagináveis, “sonhar em parar de fumar”.
Para não sofrer tanto com a tal propalada síndrome da abstinência, resolvi continuar a fumar dez cigarros diários por mais três semanas, impondo-me também uma caminhada matinal de uma hora, para acostumar o organismo com menos ar poluído. Manter a boca sempre limpa tornou-me a tarefa bem mais fácil.
Já no final da terceira semana, estabeleci um novo marco a ser sucessivamente quebrado: quanto tempo eu conseguiria ficar sem fumar? Já não me interessava a quantidade de cigarros tragados ao dia, mas, sim, o espaço temporal sem eles. Lembro-me de ter dirigido o meu carro durante seis horas, numa viagem a Santos, e, para a surpresa de minha família, que me acompanhava, nenhuma fumaça interna. Justamente aquela que tanto desagradava à minha filha desaparecera por um passe de mágica do mágico pai.

“Todos notavam que aquela chaminé não pulsava como antes, que a fumaça, embora existente, não dominava mais o ambiente como outrora, e eu era o grande herói por esse feito”

Com essa meta de estabelecimento de recordes de tempo sem fumar, cheguei à incrível marca de dois cigarros diários. Fumei esses dois cigarros diários por mais dois meses.
Hoje convivo com a quebra de recordes a cada minuto vivido, pois continuo a ser um fumante obsessivo em aumentar esse recorde que acabei de bater agora, e outro mais, mas olhando para trás e sabendo que, se não continuar nessa busca obsessiva, talvez nunca mais consiga competir.
Há oitenta e dois dias, duas horas, quarenta e cinco minutos e dez segundos eu fumei o meu último cigarro.

Fernando Saraiva, da Advogados Saraiva.

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