Quebrando a barreira do som

Promessa do rap alternativo de Ponta Grossa, a dupla Livre Efeito aborda temas que vão além dos clichês e acessam todas as classes. Veja um clipe exclusivo da dupla

Por Michelle de Geus / Foto: André Waiga

Quando o assunto é rap, a maioria das pessoas pensa em crime, polícia, drogas, sexo e ostentação. Esse não é o caso da dupla Livre Efeito, uma das mais promissoras expressões do chamado “rap alternativo” em Ponta Grossa. Formada pelo MC Raphael Pylypiec e o MC e DJ Samuel Schneider, a dupla aborda temas mais leves (mas não levianos) e democráticos, como cotidiano, relacionamento, skate, amizade e as dificuldades da vida.

“As nossas músicas falam de coisas simples para que as pessoas possam ouvir e também se identificar. Queremos ter uma maior proximidade com quem escuta o nosso som”, expõe Raphael, ressaltando que seria muito difícil falar de coisas que não fazem parte de sua realidade.

Ao mesmo tempo que aborda temas de interesse geral, a dupla também se empenha em transmitir a sua própria visão de mundo. “Todas as situações têm um lado positivo e um negativo. Nós podemos aprender com isso e, desse modo, conviver de forma mais tranquila”, filosofa Samuel.

Além do óbvio
Entre as principais influências da dupla, estão grupos como Elo da Corrente, Contra Fluxo e Pirâmide Perdida, e MCs como Parteum e Kamau. Mas as referências dos dois abarcam ainda outros gêneros musicais. “A gente também se espelha no blues, soul, funk, jazz… Também temos como referência nomes como Tim Maia e Jorge Ben Jor, que foram tão importantes para a nossa cultura”, aponta Raphael.

“A gente não fala de violência porque isso não está no nosso meio e não faz parte do nosso dia a dia” (Raphael Pylypiec, MC da dupla Livre Efeito)

Da rua para o estúdio
Raphael e Samuel se conheceram andando de skate.
Foi quando perceberam que tinham um interesse em comum pelas rimas. “Nós decidimos fazer algumas músicas e, no decorrer dos anos, a amizade se fortaleceu. Depois começamos a realmente projetar versos e instrumentais, e a conhecer melhor a área de produção musical”, narra Samuel.
A dupla então começou a apresentar as suas composições para os amigos em sessões de freestyle, como são conhecidas as rodas de improvisação no rap. Pouco tempo depois, eles viram que era hora de se profissionalizar. “Fizemos a primeira música por instinto e vimos que podíamos nos aprimorar, escrevendo de maneira correta, sem muitas gírias, para que todos pudessem entender a mensagem da música”, complementa Raphael.

Rap desde criancinha
Quando moleque, Raphael já gostava de mexer com rimas e poesias. A vocação de Samuel para a arte também se manifestou cedo, só que mais voltada às batidas. Na adolescência, ele começou a curtir o trabalho de produtores como J Dilla, 9th Wonder e Pete Rock, que foram mestres na arte do sampling, ou seja, em recortar trechos de músicas e reaproveitá-los em novas faixas. “A curiosidade me fez ir atrás do conhecimento para entender o processo criativo e descobrir como eles conseguiam colocar tanta emoção em suas músicas”, relembra.

“Hoje o contato ficou mais fácil. Isso deve ser usado para conscientizar, levar à reflexão, e não para doutrinar e manipular” (Samuel Schneider, MC e DJ da dupla Livre Efeito)

Nova visão de rap
Para muitas pessoas, o rap ainda está associado a criminalidade e marginalidade, mas Raphael argumenta que o estilo gangsta, como é conhecido o rap que versa sobre a vida nas margens da sociedade, foi necessário para uma época. “Muitos rappers viviam em meio à violência e colocavam isso nas suas músicas como forma de expressão. Essa linguagem mais agressiva era usada para impactar as pessoas de fora e criticar aquela realidade”, teoriza ele.
A partir de meados dos anos 90, com a explosão do chamado “rap alternativo”, os artistas começaram a inovar nas temáticas e nos instrumentais, entregando um som que também poderia impactar a vida de quem vive fora das favelas. A Livre Efeito é um eco tardio dessa explosão.

Linguagem mais relax
A “filosofia” de Raphael parece ser a seguinte: fale do que você vive.
“A gente não se vê falando de violência porque isso não está no nosso meio e não faz parte do nosso dia a dia. Acreditamos que uma linguagem mais tranquila traz mais pessoas para o nosso meio. A música inspira e motiva. É isso que queremos explorar”, afirma.
Na opinião de Samuel, o surgimento de uma nova visão do rap depende da relação entre artista e público. “Estamos numa era em que nos aproximamos e fazemos contato com qualquer um sem muito esforço. Essa possibilidade deve ser usada para conscientizar, levar à reflexão, e não para doutrinar e manipular”, prega.

Dupla lançará EP em plataformas digitais
A Livre Efeito encontra-se em plena finalização de Pilares, o seu primeiro EP (espécie de álbum reduzido, que tem como finalidade apresentar um artista). O trabalho terá cinco músicas e será comercializado apenas em plataformas digitais. A produção é assinada por Pedro Barão, do Estúdio Barones.

Veja a seguir um clipe exclusivo da dupla.

Um comentário em “Quebrando a barreira do som

  • 24 de julho de 2019 em 22:46
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    Jovens dedicados ao contato direto com pessoas que curtem o lado positivo e a batalha honesta para conquistar um mundo melhor

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