Reitor da UEPG, Miguel Sanches Neto se manifesta em rede social sobre a suspensão do calendário

O Reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Miguel Sanches Neto, através de uma postagem na rede social Facebook, escreveu um texto sobre a suspensão por tempo indeterminado do calendário pelo Conselho Universitário. Confira a postagem abaixo:

QUEM SUSPENDE O CALENDÁRIO DA UNIVERSIDADE

Na manhã de ontem, por 18 votos contra 10, o Conselho Universitário da UEPG suspendeu por tempo ilimitado o seu calendário. Isso significa que aulas e outras atividades didáticas estão interrompidas até o fim da greve decretada pelo Sinduepg a partir do dia 27 junho – as atividades administrativas estão mantidas. Como reitor, este foi o momento mais tenso que vivi nos 10 meses em que estou à frente da reitoria. E foi também uma oportunidade de compreender melhor a dinâmica da instituição.

Muita gente não sabe, mas o papel do reitor e do vice é muito limitado em um conselho desta natureza, composto por representantes de todos os segmentos internos, do Governo do Estado, da Prefeitura Municipal, dos docentes aposentados etc. Coube a nós tão somente o encaminhamento: marcamos a reunião extraordinária do Conselho para que este se posicionasse.

Minha primeira surpresa – negativa – foi encontrar manifestantes com música alta no saguão da reitoria. Na minha concepção, um absurdo, uma vez que não se tratava de uma luta entre reitoria e movimento docente e discente. O número de pessoas que compareceram era maior do que a capacidade da Sala dos Conselhos, o que também me preocupou. Combinei então que parte ficaria do lado de fora, e que o ambiente permaneceria de portas abertas.

Paredes e balcões estavam tomados de cartazes e faixas, o que também achei exagero. Todos que estavam ali defendiam a mesma coisa. Uma universidade pública melhor, mais investimentos em educação. Apenas a compreensão das estratégias era diferente. Uns preferiam esgotar mais as possibilidades de diálogo. Outros queriam radicalizar a pressão.
Concedemos 15 minutos para que o presidente do Sinduepg expusesse os seus argumentos.

E ele foi ouvido atentamente. Na sequência, um representante do outro sindicato, o Sintespo, que representa os agentes universitários e professores, também se manifestou, pedindo para que esta discussão fosse feita em agosto. Também foi ouvido respeitosamente por todos. Não estava prevista a participação dos alunos, mas estes tiveram igualmente tempo de fala.

Vencida esta etapa expositiva, abri a palavra para que os conselheiros fizessem suas considerações, com o limite de 5 minutos para cada participação, num máximo de três falas por representação – tal como prevê o regimento. Houve uma tentativa de vaia, o que exigiu que eu condicionasse a continuação da reunião ao respeito total e ao silêncio, para que não houvesse constrangimentos. Dessa forma, todos que quiseram se manifestar, mesmo contrariando outras análises, tiveram garantida a oportunidade de fala. O que era para ser uma manifestação se fez um diálogo nas divergências.

Este o maior saldo do episódio: conseguimos debater respeitosamente o quadro da universidade pública neste momento de grandes paixões, sempre cegas. A surpresa veio na hora da votação, feita nominalmente por proposição de uma das conselheiras. Os quadros mais à esquerda, como era de se esperar, votaram pela suspensão. Alguns membros de nossa equipe também, embora a maioria tenha votado contra, para esperarmos até agosto. E representantes da alta burguesia ponta-grossense votaram pela suspensão dos calendários. Resumindo, eleitores de Fernando Haddad e Jair Bolsonaro votando pela greve. O que isso nos ensina?

A greve dos professores é um movimento que sensibilizou a maioria da comunidade, independente das colorações ideológicas. O gatilho para esta postura foi a proposta do Governo do Estado com 0,5% de reposição este ano e fim das licenças prêmios. Embora tenham rendimento acima das demais categorias docentes, os professores universitários – de direita ou de esquerda – estão sentindo os efeitos terríveis de um achatamento salarial e percebem os riscos vividos pela carreira pública.

Neste processo todo, a reitoria da UEPG (reitor e vice) não se manifestou nem a favor nem contra a greve, para não interferir num processo que quanto mais espontâneo mais legítimo. Cabe a nós, agora, acatar a decisão do Conselho e continuar criando canais de diálogo para que a greve docente seja logo superada com conquistas para todos. Para a reitoria, a suspensão do calendário não suspende o diálogo com o governo, só o intensifica. Esperamos agora que todos que votaram a favor da greve se somem a este esforço de construção. E que alguns votos não tenham sido pura hipocrisia. Viva a universidade pública brasileira!

Miguel Sanches Neto – Reitor da UEPG /Foto: Facebook

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