Como vai a vida amorosa dos ponta-grossenses?

Enxergar as próprias limitações, admitir que todos podem errar e saber pedir perdão é o caminho para uma relação duradoura, afirmam psicanalistas Eduardo Pereira e Mara Lúcia Soares

Por Michelle de Geus / Foto: André Waiga

Para falar dos problemas de relacionamento dos casais, nada melhor do que um casal. Os psicanalistas ponta-grossenses Eduardo Pereira e Mara Lúcia Soares, que são casados, ajudam casais que passam por dificuldades e desejam resgatar a relação. Mas eles também trabalham com pessoas que já se divorciaram e estão em outros relacionamentos, mas querem manter um bom convívio por causa dos filhos, e com casais de namorados que desejam se preparar para a realidade do casamento.
Os psicanalistas revelam que a procura dos ponta-grossenses por terapia de casal aumentou significativamente nos últimos anos e que o mundo moderno está ocasionando crises conjugais cada vez mais frequentes. Ao mesmo tempo, os casais, segundo eles, começam a perceber que é muito mais vantajoso resgatar o casamento do que se divorciar. Na entrevista a seguir, eles falam sobre os diversos dilemas que afligem a vida amorosa dos ponta-grossenses.

Segundo a sua experiência, quais são os problemas mais comuns que os ponta-grossenses enfrentam nos relacionamentos?
ML: Uma das maiores carências é que as pessoas estão cada vez mais focadas no trabalho, e quando chegam em casa não têm tempo um para o outro. A falta de diálogo entre os casais também é um problema comum. Quando passam por algum desentendimento, eles agem como se aquilo não tivesse acontecido e empurram para debaixo do tapete. A proposta da terapia é tirar o tapete e fazer eles conversarem. Nós já atendemos a uma mulher que, para fazer com que o marido a entendesse, correu atrás dele com uma vassoura. Para dialogar, não é preciso aumentar o volume da voz ou ofender. Se a pessoa recorre à violência física ou psicológica para resolver um problema, ela assume que não tem competência para resolver por meio da conversa.

Os problemas dos ponta-grossenses são diferentes dos problemas enfrentados por outros casais ao redor do mundo?
EP: Nesse quesito, Ponta Grossa não é diferente das outras cidades. Uma universidade norte-americana acompanhou 20 mil casais por mais de dez anos e descobriu que um dos principais motivos de briga entre eles era a pasta de dente. Isso acontecia porque um dos cônjuges tinha o costume de apertar no final do tubo e o outro no meio. Sempre que a gente menciona isso no consultório, os casais acham um absurdo discutir por algo tão banal. Quando eles começam a terapia, descobrem que estavam brigando por coisas igualmente simples. Nós já atendemos a uma senhora que estava revoltada porque o marido apoiava a mão na parede toda vez que ia ao banheiro. Ela ficava irritada com a marca da mão nos azulejos sem saber que ele fazia isso para não urinar no chão.

“As pessoas estão cada vez mais focadas no trabalho, e quando chegam em casa não têm tempo um para o outro” (Mara Lúcia Soares)

Qual é a melhor forma de lidar com as diferenças de personalidade?
EP: Um problema muito comum entre os casais é que a mulher tenta entender o homem com a sua cabeça de mulher e vice-versa. É natural, mas não funciona. Compreender que existem diferenças de gênero, de criação, de cultura e de personalidade facilita o convívio. Isso acontece, inclusive, no sexo. Depois do orgasmo, a primeira coisa que o homem quer fazer é dormir. É uma característica do gênero masculino, existe um processo bioquímico que faz com que ele sinta sono. A mulher, que queria carinho e atenção, fica cheia de pensamentos negativos. Quando o casal entende essas diferenças, consegue negociar e ambos ficam felizes.

Que conselhos vocês costumam dar para os casais que querem melhorar o seu relacionamento?
EP: Um dos maiores desafios é a falta de empatia e a dificuldade de olhar para o outro. Uma das dinâmicas que nós usamos com os casais é orientá-los a fazer um programa a dois, uma vez por semana. Numa semana, o marido planeja; na outra semana, a esposa planeja. O fator-chave dessa dinâmica é programar o passeio pensando no que o outro vai gostar. É uma surpresa, e a pessoa só vai saber o que vai acontecer quando chegar no local. O objetivo é se despir da crítica e desfrutar da oportunidade que o outro criou. Isso leva a pessoa a prestar mais atenção no companheiro.

“Um problema muito comum é que a mulher tenta entender o homem com a sua cabeça de mulher e vice-versa” (Eduardo Pereira)

A tecnologia e as mudanças na sociedade estão afetando os relacionamentos amorosos?
ML: O celular se tornou uma fuga do relacionamento e uma forma de nunca estar realmente presente. Uma coisa que nós sugerimos é que os casais façam, juntos, no mínimo, uma refeição por semana, mas com os celulares desligados e deixados em uma cestinha. A ideia é que eles aproveitem aquele tempo para conversar e realmente prestar atenção um ao outro.

A tentação de bisbilhotar o celular do parceiro sem permissão é grande. Essa vigilância funciona?
EP: A verdadeira fidelidade é voluntária. Ninguém se torna fiel porque está sendo vigiado. Nós já atendemos a uma esposa que colocou monitoramento via GPS e câmera no carro do marido sem ele saber. O problema não é a vigilância ou bisbilhotar o celular, é a insegurança. Na maioria das vezes, a pessoa ciumenta é insegura consigo mesma.

“O celular se tornou uma fuga do relacionamento e uma forma de nunca estar realmente presente” (Mara Lúcia Soares)

De modo geral, como é possível ter um relacionamento mais duradouro?
ML: Ter consciência das próprias limitações, admitir que todos podem errar e saber pedir perdão é o caminho para um casamento duradouro. Outra coisa imprescindível é o respeito. Quando o respeito acaba, acontecem os abusos e violências psicológicas.

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