Preparar, apontar, fogo!

Num momento em que tanto se discute sobre armas de fogo, o tiro esportivo cresce entre o público ponta-grossense, que se reúne em diversos clubes da cidade

Por Fernando Rogala / Foto: Divulgação

A ciência já provou que hobbies são necessários para uma vida sadia. Para quem aprecia armas de fogo, o tiro esportivo e o tiro prático são modalidades ideais para trocar conhecimentos, conhecer outros aficionados e, é claro, praticar. Seguro e emocionante, o tiro esportivo é um esporte olímpico, presente nos Jogos Olímpicos desde a sua primeira edição, ocorrida em 1986, na Grécia.
Nem todos sabem, mas Ponta Grossa tem uma longa tradição na modalidade. O município abriga um dos mais antigos cubes de tiro esportivo do estado, o Clube de Caça e Pesca do Paraná, criado em 1932 ao lado do Aeroporto Sant’Ana. Desde então, o esporte cresceu e passou a contar com vários outros clubes, como o Clube de Tiro Ponta Grossa (CTPG), a Associação dos Amigos da Polícia Civil (AAPC), o Top Training e o Clube de Tiro Serra Dourada.

Prática
A eleição de Jair Bolsonaro (PSL), um notório defensor da posse e porte de armas, para a presidência da república não tem relação com o crescimento da modalidade, defende Juliano Pierini, sócio-proprietário da Casa do Atirador e praticante de tiro esportivo há 20 anos. “A procura não aumentou por causa do decreto [que aprova a posse de armas de fogo]. Ela sempre existiu. As pessoas têm muita curiosidade com relação a arma de fogo, é algo que desperta bastante interesse”, explica. “E a tendência é aumentar um pouco mais. Quem compra uma arma, não quer deixar ela guardada em casa, quer praticar”, completa.
A prática do tiro vai muito além de ficar parado acertando alvos fixos. O esporte conta com diversas submodalidades, divididas por tipos de armas (de fogo, a ar, pistolas, revólveres, carabinas e rifles), com atividades dinâmicas. Entre as mais procuradas, estão o tiro esportivo (tiro de precisão em diferentes distâncias) e o tiro prático (com provas movimentadas). “Além dessas, há o tiro em silhueta metálica, tiro ao prato, pistas contrarrelógio… Enfim, vai do gosto pessoal”, aponta Pierini, acrescentando que o público é bastante dividido entre as armas curtas e longas.

“As pessoas têm muita curiosidade com relação a arma de fogo, é algo que desperta bastante interesse” (Juliano Pierini, praticante de tiro)

Expoente
Um dos maiores expoentes de Ponta Grossa no esporte é Carlos Garletti, que já representou o país nos Jogos Paraolímpicos do Rio de Janeiro (2016), de Pequim, na China (2008), e de Londres, na Inglaterra (2012). Mesmo sendo um atleta de alto nível, Garletti também trabalha como médico oftalmologista, o seu trabalho “oficial”.
O gosto dele pelo tiro foi uma consequência de sua paixão por armas, que virou prática esportiva após assistir a um evento de tiro. “Tive a oportunidade de acompanhar uma competição e achei interessante. Fui me informar, emprestei uma carabina de ar, treinei um pouco, e, na primeira competição, já fiz um resultado legal, que me colocou em destaque. Cerca de um ano depois, eu já estava no campeonato mundial”, lembra ele, que tinha então quase 30 anos de idade.

Juliano Pierini, sócio-proprietário da Casa do Atirador e praticante de tiro esportivo há 20 anos: “Quem compra uma arma, não quer deixar ela guardada em casa, quer praticar”


Hoje Garletti mantém uma espécie de agenda para a prática do tiro esportivo. “Treino cerca de uma hora por dia. Nos fins de semana, treino duas ou três horas. Mas, depois de um tempo, eu paro, porque não se torna produtivo. Você não pode se cansar do que está fazendo, senão isso deixa de ser prazeroso – e é algo que eu não quero. O tiro já me trouxe muita coisa boa”, avalia.
Os treinos ocorrem em casa. O esportista montou uma estrutura para a modalidade de tiro a ar de 10 metros com um alvo eletrônico olímpico. Para a carabina calibre 22, montou uma estrutura de 50 metros em sua chácara. Em preparação para os Jogos Parapan-Americanos de 2019, que acontecerão em Lima, no Peru, em agosto próximo, e para o Campeonato Mundial de Tiro Esportivo Paralímpico na Austrália, em outubro, Garletti afirma que vai intensificar os treinos.

“Na Europa, usam o tiro esportivo para tratar crianças com déficit de atenção, e, na Coreia do Sul, o tiro é praticado na escola” (Carlos Garletti, atleta paralímpico de tiro esportivo)

Benefícios
Na contramão de uma parcela da sociedade, que insiste em olhar com desconfiança para as armas de fogo, os praticantes afirmam que o tiro esportivo pode proporcionar muitos benefícios. Um dos principais consiste no treino e fortalecimento da atenção, o que faz do esporte algo recomendável até para crianças. “O tiro esportivo é um esporte de extrema concentração, que exige atenção e controle da respiração e do batimento cardíaco. No Brasil ainda não é algo bem-visto para crianças, mas, na Europa, usam o tiro esportivo para tratar crianças com déficit de atenção. Em outros países, como na Coreia do Sul, o tiro é praticado na escola”, informa Garletti, lembrando que o esporte não precisa ser necessariamente praticado com arma de fogo.
A exemplo do que ocorre em muitas outras modalidades esportivas, o ideal é que se comece a praticar o tiro o quanto antes. Por envolver força física, Pierini indica que, a partir da adolescência, já é possível manejar uma arma com segurança. “As crianças e adolescentes aprendem muito mais rápido. Temos que continuar fomentando o tiro, porque é a geração futura do nosso esporte”, conclui ele, frisando ainda que desconhece acidentes que envolvam adolescentes dentro de clubes de tiro.

Adesão
Qualquer pessoa pode comprar uma arma e participar de um clube de tiro. No entanto, é necessário solicitar uma Concessão de Registro (CR), para a qual são exigidos vários documentos. Além disso, há diversos critérios nos quais o interessado precisa se enquadrar – entre eles, não responder a processo criminal. Depois de obter os documentos, a pessoa pode procurar uma loja e comprar uma arma, conforme a sua submodalidade de interesse. Nos clubes, exige-se pagamento da joia e anuidade.

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