Luiz Fernando Cheres: Anjinha peluda, feiticeira

Naquela vez aconteceu com o Gui: ele voltou da casa da amiga, trazendo uma gatinha no colo.
O menino contou que ganhou da mãe da amiga; a gata da família teve a ninhada, distribuíram os filhotes bonitos, e restou a rejeitadinha que meu filho quis adotar. Porém a coisa não foi muito bem recebida entre nós, por vários motivos.
— De onde essa ideia, Gui? Mais bicho em casa! Aqui já tem três cadelas!
— Quem tem três bichinhos pode ter também uma gatinha, pai.
— Cães e gatos não torcem pro mesmo time, é capaz de as cadelas desossarem a bichana.
— Eu prometo, elas ainda fazem amizade!
— Missão impossível — observou minha mulher — bicho não reza, e vai dar briga.
— Mas me deram de presente, mãe!
— Presente de grego! Imagine a cantoria quando ela entrar no cio!
Eu cheguei mais perto para observar a gata. Era realmente muito feia, e meu filho a apertava no colo.
— Ela tem uma pequena dificuldade, pai: nasceu só com três patinhas.
E soltou o animal no chão. Minha mulher também se aproximou e viu uma coisinha desconfiada, porém caminhando com desenvoltura, mesmo sobre três patinhas.
— Ela rebola!
— Também, com três patinhas!
— É uma vencedora — afirmou meu filho — pois foi tirada de perto da mãe logo ao nascer. A mãe dela come os filhotes que nascem com defeito.
— Credo!
— Pata a menos não é defeito, é característica — eu me peguei defendendo o animal.

“Anjinha peluda, feiticeira, com certeza ficaria horas e horas me olhando, se fosse possível. Deve ser o único ser do universo que verdadeiramente me acha bonito”


E a Vitória fez amizade com nossas cachorrinhas! Dorminhoca como ninguém, fica estatelada por cima delas, é aquela lambeção sem fim.
Entre nós, um luxo só:
— Hoje é dia de levar a Vitória ao pet shop!
— Meu Deus, é tão linda essa menina!
— Cheres, não esqueça da ração da Vitória!
Sairia em conta se eu alimentasse a gata com caviar e escargot; a ração indicada pelo veterinário é especial, a moça tem uns probleminhas de saúde, e descobrimos que nunca poderá ser mamãe. O chato é que ela evita a ração, prefere coisas mais prosaicas, como arroz e carne. E deu de sumir de casa, passar uns dias fora, depois volta despenteada, suja, com cara de ré. No começo foi angustiante, contudo fomos nos acostumando. Mas não é fácil.
— Gatos e humanos, todos condenados à liberdade.
Percebemos que a conquistadora criou uma verdadeira rede de amizades com os animais da vizinhança. Até o pitbull da outra quadra, sempre mal-humorado, balança o rabinho se a nossa mocinha desfila na calçada da casa dele. E ficam se cheirando.
Aí a gente se abraça na frente dela, troca palavras carinhosas, tudo para provocar a curiosa reação da jovenzinha, que vem querendo se esfregar nas minhas pernas, miando com um desespero lancinante. Quando insistimos no abraço, Vitória mostra visíveis sinais de nervosismo, parece que vai atacar quem me abraça.
— Virou tua amante, Cheres, e é ciumenta!
— Viu, Yonara, eu ainda consigo conquistar as gatinhas.
— “As gatinhas” não, seu convencido. É “uma” gatinha.
— Mas é a mais bonita do mundo.
Anjinha peluda, feiticeira, tendo oportunidade já me pula no colo, macia e cheirosa, ou deita ao meu lado na cama; com certeza ficaria horas e horas me olhando, se isso fosse possível. Deve ser o único ser do universo que verdadeiramente me acha bonito. Na verdade, meio de canto, eu também admiro minha pequena amante. Como que, com apenas três patinhas, a garota consegue correr no alto do muro, subir nas árvores, caminhar pelo telhado? E sem medo, graciosa. Decerto sabe que é uma gata igual a todas as outras, a falta da patinha não a faz estranha, anormal.
Anormal é um homem maduro se apaixonar por uma gata, um cão, um papagaio. Infelizmente. Na verdade os homens normais envelhecem e ficam bobões, não sabem o que estão perdendo.

Luiz Fernando Cheres é escritor, autor de “Um Beijo Longe dos Lábios” e “Amar não é Preciso”. Ocupa a Cadeira nº 11 na Academia de Letras dos Campos Gerais (ALCG).

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